{"id":262,"date":"2020-11-01T16:27:17","date_gmt":"2020-11-01T19:27:17","guid":{"rendered":"http:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/?p=262"},"modified":"2020-11-01T16:31:12","modified_gmt":"2020-11-01T19:31:12","slug":"o-tribalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/o-tribalismo\/","title":{"rendered":"O TRIBALISMO"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section fb_built=&#8221;1&#8243; _builder_version=&#8221;4.5.6&#8243; _module_preset=&#8221;default&#8221;][et_pb_row _builder_version=&#8221;4.5.6&#8243; _module_preset=&#8221;default&#8221;][et_pb_column _builder_version=&#8221;4.5.6&#8243; _module_preset=&#8221;default&#8221; type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;4.5.6&#8243; _module_preset=&#8221;default&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243;]Este artigo representa o resumo de um livro que estamos desenvolvendo, que tem como objetivo o estudo das organiza\u00e7\u00f5es humanas, com foco nos sistemas tribais, a forma organizativa mais antiga da humanidade.<br \/>\n\tO livro apresentar\u00e1 uma primeira parte de retrospectiva das organiza\u00e7\u00f5es humanas desde o aparecimento da esp\u00e9cie humana  \u00e0 atualidade e, na segunda parte, os fundamentos do tribalismo. Ao final fornece as indica\u00e7\u00f5es de como fundar uma sociedade tribal em qualquer parte do mundo, utilizando-se de outras ferramentas metodol\u00f3gicas, como o Dragon Dreamming e a Sociocracia. <\/p>\n<h2>As Ra\u00edzes da Humanidade.  <\/h2>\n<p>\tSegundo a teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de Charles Darwin, que at\u00e9 hoje n\u00e3o encontrou contesta\u00e7\u00e3o ou proposi\u00e7\u00e3o de igual envergadura na ci\u00eancia, os humanos teriam evolu\u00eddo a partir dos primatas, que habitavam as florestas da \u00c0frica. Esses primatas teriam se dividido em dois ramos: os pongidae e os hominidae.  Os pongidae teriam dado origem a v\u00e1rias esp\u00e9cies de macacos, gorilas e chipanz\u00e9s e o hominidae ao g\u00eanero homo. <\/p>\n<p>\tO ramo homin\u00eddeo decidiu descer das \u00e1rvores e disputar comida nas plan\u00edcies h\u00e1 cerca de 4 milh\u00f5es de anos A.P. (Antes do Presente).  Para isso, teve que desenvolver, al\u00e9m de algumas ferramentas e habilidades, organiza\u00e7\u00f5es sociais cada vez mais sofisticadas, que dessem conta, n\u00e3o somente da obten\u00e7\u00e3o de alimentos, mas tamb\u00e9m da administra\u00e7\u00e3o de grupos que se tornavam a cada dia mais numerosos e heterog\u00eaneos. Mesmo quando alguns pesquisadores definem os grupamentos humanos pr\u00e9-hist\u00f3ricos como hordas de ca\u00e7adores e coletores, \u00e9 correto afirmar que eles possu\u00edam organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, que possibilitavam a pr\u00e1tica das atividades de ca\u00e7a e coleta de frutos, a constru\u00e7\u00e3o de abrigos e a defesa de ataques de outros grupos. Esses grupamentos humanos viriam, no futuro, a ser denominados de tribos \u2013 do latim tribus.<br \/>\nCom o advento da agricultura, que teria ocorrido em v\u00e1rias partes do globo, entre 11.000 e 10.000 anos A.P., muitos desses grupamentos humanos tornaram-se gradativamente sedent\u00e1rios, continuando, no entanto, a se organizarem em tribos.<\/p>\n<h2>As Organiza\u00e7\u00f5es Sociais Centralizadoras de Poder.<\/h2>\n<p>As primeiras formas de organiza\u00e7\u00f5es humanas concentradoras de poder teriam aparecido na Sum\u00e9ria, h\u00e1 cerca de 5.000 aos A.P., na forma de feudos. Talvez n\u00e3o por acaso, \u00e9 naquela regi\u00e3o que se registram tamb\u00e9m as primeiras formas de dinheiro, de com\u00e9rcio e da escrita, usada para registrar as transa\u00e7\u00f5es comerciais. Aos primeiros feudos se sucederam outras formas organizativas centralizadoras de poder, como reinados, imp\u00e9rios e estados. O primeiro imp\u00e9rio teria ocorrido na Arc\u00e1dia, h\u00e1 cerca de 4,5 mil anos.<br \/>\nO novo sistema que surgia propunha a unifica\u00e7\u00e3o das tribos, mesmo que a coa\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a precisassem ser usadas.  E, a cada reinado que se formava ou rei que assumia a coroa, tinha-se como fator positivo para os s\u00faditos, a conquista de novas terras e a domina\u00e7\u00e3o dos povos \u201cb\u00e1rbaros\u201d. Os chamados b\u00e1rbaros eram exatamente os povos tribais.  Essa mentalidade \u00e9 observada ainda na atualidade, nas a\u00e7\u00f5es de expans\u00e3o de estados ditos democr\u00e1ticos. A cada governante que assume, em pa\u00edses onde ainda se verifica a presen\u00e7a de povos tribais (como os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, Brasil inclu\u00eddo), sempre \u00e9 editado algum plano de expans\u00e3o colonizadora, que atinge esses povos, ainda considerados \u201cprimitivos\u201d.<\/p>\n<h2>O Sistema Capitalista<\/h2>\n<p>O capitalismo s\u00f3 come\u00e7aria a ser reconhecido como um sistema a partir do s\u00e9culo XIV, com o advento das grandes navega\u00e7\u00f5es, que ampliaram o comercio intercontinental, induzindo os regimes feudais da Europa a se fundirem em estados, governados por monarcas. Ancorado em estados absolutistas; refor\u00e7ado pelas religi\u00f5es monote\u00edstas, como o Catolicismo e o Islamismo, que lhe deram justificativas \u201cdivinas\u201d para a domina\u00e7\u00e3o de outros povos; impulsionado pelo avan\u00e7o da ci\u00eancia, da ind\u00fastria e das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, o capitalismo tornou-se uma for\u00e7a hegem\u00f4nica em todo o mundo. \u00c9 uma for\u00e7a t\u00e3o poderosa, que os pr\u00f3prios humanos n\u00e3o sabem como desativ\u00e1-la ou mesmo arrefec\u00ea-la. <\/p>\n<p>Desde que parte da humanidade percebeu o poder de domina\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, grandes teorias e revolu\u00e7\u00f5es foram tentadas para confront\u00e1-lo, no intuito de retirar o poder dos mais ricos e transferindo-o para os oper\u00e1rios. Isso ocorreu atrav\u00e9s de pesadas \u201cditaduras do proletariado\u201d, que se tornaram, na pr\u00e1tica, ineficientes e corruptos estados-patr\u00e3o. Estamos falando do socialismo e comunismo, experi\u00eancias organizativas surgidas no s\u00e9culo XIX em oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo, que acabaram fracassando. Ao fracassarem, refor\u00e7aram ainda mais a ideia da inevitabilidade do capitalismo.<\/p>\n<h2>\tAs Mazelas do Sistema Capitalista.\t<\/h2>\n<p>Os efeitos contempor\u00e2neos do sistema capitalista todos sentimos no momento: o sup\u00e9rfluo alcan\u00e7ando mais valia do que os produtos b\u00e1sicos, consumismo desenfreado, acumula\u00e7\u00e3o de bens que deveriam ser de uso coletivo, desigualdades sociais profundas; doen\u00e7as degenerativas provocadas por produtos industrializados; destrui\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel da natureza, desequil\u00edbrios clim\u00e1ticos; pandemias, guerras; escassez de \u00e1gua e alimentos, entre in\u00fameras outras mazelas.<\/p>\n<p>O capitalismo acirrou a competi\u00e7\u00e3o entre as pessoas, comunidades e pa\u00edses, levando-os aos conflitos e \u00e0s guerras, aproveitando-se deles para crescer e dominar. Desenvolveu nas pessoas o conceito cultural do meu, em substitui\u00e7\u00e3o ao nosso, al\u00e9m da mentalidade que a natureza existe para ser dominada e colocada a servi\u00e7o do homem. Induziu as pessoas a habitarem os ambientes urbanos, em locais fechados e ao m\u00e1ximo individualismo.  <\/p>\n<p>O isolamento dos elementos da natureza, da qual todos fazemos parte, e do conv\u00edvio estreito e constante com outras pessoas, acrescido de v\u00e1rios outros fatores, tamb\u00e9m gerados pelo capitalismo, tem levado milh\u00f5es de pessoas a desenvolverem problemas mentais, como depress\u00e3o, bipolaridades, defici\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios, entre outros, sem contar as doen\u00e7as degenerativas, e as provocadas pela ingest\u00e3o de alimentos contaminados.  <\/p>\n<p>Por seu turno, as religi\u00f5es hegem\u00f4nicas, que h\u00e1 mil\u00eanios se tornaram as grandes aliadas do sistema, atemorizam a alma das pessoas, amea\u00e7ando-as com o fogo do inferno, caso n\u00e3o sigam seus dogmas e as mantenham com (muito) dinheiro.<\/p>\n<p> Acossados pelo medo material por um lado e pelo ps\u00edquico-espiritual pelo outro, os cidad\u00e3os se entregam aos seus salvadores, que lhes prometem a reden\u00e7\u00e3o, assim na terra como no c\u00e9u. Entre resignados e esperan\u00e7osos, a grande maioria das pessoas aguarda a grande cat\u00e1strofe e o ju\u00edzo final.<br \/>\nTudo converge para a falta de perspectivas de futuro, principalmente dos jovens. Eles travam uma profunda e angustiante batalha interior, entre a consci\u00eancia que lhes diz que as coisas precisam mudar e a realidade, que n\u00e3o lhes mostra nenhuma porta de sa\u00edda. <\/p>\n<h2>O Movimento Hippie<\/h2>\n<p>O movimento social que influenciou marcantemente a modernidade, no entanto, foi o movimento hippie, ocorrido entre as d\u00e9cadas de 1960\\70, quando jovens cabeludos passaram a contestar o sistema e sa\u00edram pelo mundo, em busca de paz e conviv\u00eancia harmoniosa com as pessoas e o meio-ambiente. O Movimento Hippie, como foi concebido, come\u00e7ou em decl\u00ednio em 1969, ap\u00f3s o festival de Woodstok. Ele deixou suas sementes, no entanto, nas milhares de experi\u00eancias atuais, existentes em todo o mundo, do que se passou a chamar, genericamente, de Comunidades Alternativas  ou  Intencionais.  Desde a d\u00e9cada 1970, pessoas e grupos continuam a tentar deixar para tr\u00e1s o mundo urbano e o consumismo desenfreado, para viverem em pequenas comunidades, que sejam sustent\u00e1veis, social e ambientalmente. <\/p>\n<p>\tEssas comunidades se estabelecem agindo dentro dos princ\u00edpios de igualdade, coopera\u00e7\u00e3o, conviv\u00eancia harmoniosa entre as pessoas e a natureza. A maioria delas, no entanto, fracassa e as pessoas se dispersam, n\u00e3o raro, envoltas em brigas judiciais. Isso acontece porque, apesar de se constitu\u00edrem propondo a\u00e7\u00f5es e estilos de vida que contestam o sistema, acabam caindo em suas malhas, ao constitu\u00edrem institui\u00e7\u00f5es formais, tipo associa\u00e7\u00f5es, institutos e cooperativas, para gerir o processo comunit\u00e1rio.  Cotas, terrenos, escrituras, projetos, heran\u00e7as, disputas pelo poder, tudo segue a l\u00f3gica e a liturgia capitalista. Acabam provocando os mesmos tipos de conflitos do macro sistema. <\/p>\n<h2>O Tribalismo<\/h2>\n<p>Podemos afirmar, com base nos processos hist\u00f3ricos, que todos os nossos antepassados foram tribais, em alguma \u00e9poca da longa hist\u00f3ria da humanidade. As grandes utopias humanas, como a conviv\u00eancia harmoniosa com as pessoas e com a natureza, a distribui\u00e7\u00e3o justa dos alimentos e dos bens, a espiritualidade ligada \u00e0s for\u00e7as naturais e aos antepassados, as festas e rituais coletivos, est\u00e3o presentes nos arqu\u00e9tipos de todos os seres humanos. \u00c9 como se fosse uma coisa que j\u00e1 tivemos e nos foi tirada, mas continua viva no inconsciente.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 uma tribo?<\/h2>\n<p>Pode-se dizer que tribo \u00e9 um cons\u00f3rcio de pessoas e fam\u00edlias que decidem compartilhar o mesmo territ\u00f3rio, na busca da subsist\u00eancia f\u00edsica e econ\u00f4mica, seguindo regras comuns. Uma tribo forma uma comunidade fechada, da qual outras pessoas s\u00f3 podem participar com a permiss\u00e3o de todos. <\/p>\n<p>O que os povos tribais, geralmente, denominam de meu povo ou minha tribo, \u00e9 a aldeia onde residem e n\u00e3o todas as aldeias que possam existir, da sua etnia.  Assim, as aldeias, mesmo que perten\u00e7am a uma mesma etnia, formam comunidades fechadas, independentes e aut\u00f4nomas, jamais interferindo nos assuntos internos umas das outras, mesmo que estejam muito pr\u00f3ximas entre si. Se determinada fam\u00edlia de uma aldeia pretende habitar em outra, necessita pedir permiss\u00e3o \u00e0s lideran\u00e7as de onde pretende morar. Uma vez ali, dever\u00e1, ent\u00e3o, ajustar-se \u00e0s pol\u00edticas internas e externas e \u00e0s pr\u00e1ticas ritual\u00edsticas daquela comunidade.<\/p>\n<p>Obviamente, as comunidades tribais relacionam-se diplomaticamente entre si, trocando alian\u00e7as pol\u00edticas, festas e casamentos. Eventualmente, tamb\u00e9m entram em conflito.<\/p>\n<h2>A evolu\u00e7\u00e3o social das tribos.<\/h2>\n<p>\tA expans\u00e3o da esp\u00e9cie homo por todos os continentes da terra possibilitou a forma\u00e7\u00e3o de tribos diferenciadas culturalmente entre si, desde a linguagem, as cren\u00e7as e as organiza\u00e7\u00f5es sociais.  Elas estavam sempre se cindindo, afastando-se de seu n\u00facleo inicial e miscigenando-se a outras tribos, criando novas culturas.<\/p>\n<p>\tEvoluindo durante milh\u00f5es de anos em seus relacionamentos grupais, desde a lei do mais forte que vigorava em seu in\u00edcio, transformaram-se em sociedades que repelem categoricamente o poder de pessoas sobre outras.  As lideran\u00e7as, distribu\u00eddas equitativamente entre os cl\u00e3s, n\u00e3o podem e n\u00e3o devem mandar em ningu\u00e9m ou acumular posses, sob pena de serem defenestradas ou abandonadas pelo restante do grupo.  O bom l\u00edder \u00e9 aquele que sabe ouvir e costurar o consenso, al\u00e9m de cuidar para que as tradi\u00e7\u00f5es ritual\u00edsticas herdadas dos antepassados sejam mantidas.<\/p>\n<h2>A Espiritualidade <\/h2>\n<p>As cren\u00e7as espiritualistas tribais ind\u00edgenas, em sua grande maioria, s\u00e3o baseadas no culto aos antepassados e na rela\u00e7\u00e3o com entidades protetoras da natureza. Tudo no mundo natural possui vida, energia e esp\u00edritos protetores. Os chamados Paj\u00e9s possuem a faculdade de entrar em contato com os protetores da natureza e com os esp\u00edritos dos antepassados. O SOL \u00e9 nosso pai e a TERRA a nossa m\u00e3e. Al\u00e9m deles existe o GRANDE ESP\u00cdRITO, que a tudo permeia.  N\u00e3o existem, no entanto, messias salvadores nem sistemas hierarquizados, com dogmas r\u00edgidos e regras emanadas de supostos representantes humanos de divindades onipotentes. <\/p>\n<h2>O TRIBALISMO<\/h2>\n<h3>Premissas de um Sistema Tribal<\/h3>\n<p>\tComo s\u00e3o anteriores a todos esses fen\u00f4menos humanos, uma organiza\u00e7\u00e3o tribal deve ter as seguintes premissas: Aus\u00eancia de estado, de estatutos, de propriedade privada, de moeda e de escrita. Se observarmos atentamente, esses s\u00e3o os principais focos de conflitos no sistema dominante.<\/p>\n<h3>Princ\u00edpios e Fundamentos<\/h3>\n<p>\tS\u00e3o v\u00e1rios os princ\u00edpios e fundamentos que sustentam um sistema tribal.  Entre eles, podemos destacar: <\/p>\n<h3>&#8211; Gerontocracia &#8211;<\/h3>\n<p> O termo gerontocracia designa o predom\u00ednio dos mais velhos nas decis\u00f5es coletivas. Em um sistema tribal, os mais idosos tomam as decis\u00f5es finais em assuntos importantes. <\/p>\n<h3>&#8211; Decis\u00e3o por Consenso &#8211;<\/h3>\n<p> Isso parece muito dif\u00edcil para as pessoas que habitam no meio capitalista, que induz ao individualismo e a exalta\u00e7\u00e3o do ego, mas em uma sociedade tribal, as pessoas est\u00e3o sempre predispostas ao consenso e ao bem-estar do grupo. O exerc\u00edcio continuado leva o grupo a desenvolver a cultura do consenso, j\u00e1 que nada importante ser\u00e1 decidido sem alcan\u00e7\u00e1-lo. O bom l\u00edder \u00e9 aquele que sabe ouvir e costurar o consenso. Em decis\u00f5es de assuntos importantes ou que se tornem pol\u00eamicos, ap\u00f3s ouvir a todos, o consenso \u00e9 alcan\u00e7ado apenas entre os mais idosos. Suas decis\u00f5es devem ser seguidas por todos.<\/p>\n<h3>&#8211; Rela\u00e7\u00f5es de Reciprocidade<\/h3>\n<p> Trata-se das rela\u00e7\u00f5es de trocas de alimentos e trabalho, mantida pelas fam\u00edlias do grupo.  Elas s\u00e3o baseadas, geralmente, em rela\u00e7\u00f5es de parentesco direto e de fam\u00edlias afins, ou seja, de fam\u00edlias que buscam, preferencialmente, os casamentos de seus membros umas com as outras. Os parentes e os afins devem repartir os alimentos entre si, enviando-os de umas resid\u00eancias para outras. Assim, em um grupo tribal, uma fam\u00edlia sempre ter\u00e1 certo n\u00famero de resid\u00eancias \u00e0s quais ela deve enviar os alimentos obtidos. Em contrapartida, sempre haver\u00e1 certo n\u00famero de fam\u00edlias que dever\u00e1 repartir os alimentos com ela.  Isso possibilita a circula\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria de alimentos. Se forem seguidas as rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade, torna-se praticamente imposs\u00edvel alguma pessoa ou fam\u00edlia acumular alimentos ou passar necessidades alimentares. Pelo sistema de reciprocidades tamb\u00e9m s\u00e3o realizadas trocas e mutir\u00f5es de trabalhos entre fam\u00edlias.<\/p>\n<h3>&#8211; Obriga\u00e7\u00f5es Ritual\u00edsticas &#8211;<\/h3>\n<p> Em uma sociedade tribal sempre h\u00e1 um calend\u00e1rio ritual\u00edstico e festivo que deve ser seguido. Esse calend\u00e1rio, \u00e9 composto por festas e rituais que, geralmente, comemoram os ciclos da vida e da natureza. Chamamos de \u201cobriga\u00e7\u00f5es ritual\u00edsticas\u201d o verdadeiro compromisso que cada um dos membros da tribo precisa assumir, para que eles nunca deixem de ser realizados. A participa\u00e7\u00e3o de cada indiv\u00edduo nesses ritos est\u00e1 ligada de alguma forma \u00e0 sua vida, atrav\u00e9s de nomes pessoais, pertencimento a cl\u00e3s e linhagens e grupos de idade. Assim, cada indiv\u00edduo torna-se \u00fanico e imprescind\u00edvel, para que os rituais aconte\u00e7am.<\/p>\n<h3> &#8211; Lideran\u00e7as &#8211;<\/h3>\n<p> O l\u00edder, em uma sociedade tribal, jamais decide nada importante sozinho, n\u00e3o pode mandar em ningu\u00e9m e n\u00e3o possui nenhum privil\u00e9gio adicional pelo cargo.  Ele tem a prerrogativa de propor ideias e atividades como qualquer outra pessoa que esteja em n\u00edvel decis\u00f3rio. Precisar\u00e1, no entanto, buscar o consenso em suas proposi\u00e7\u00f5es, para que possa execut\u00e1-las. Igualmente, escutar\u00e1 as proposi\u00e7\u00f5es e debates dos outros membros do conselho tribal e, havendo consenso sobre elas, encaminhar\u00e1 a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>&#8211;  Produ\u00e7\u00e3o familiar &#8211;<\/h3>\n<p> A principal c\u00e9lula de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e bens de consumo \u00e9 a fam\u00edlia, geralmente, as denominadas fam\u00edlias extensas (grandes fam\u00edlias formadas por v\u00e1rias fam\u00edlias nucleares).<br \/>\nAs fam\u00edlias podem se juntar em mutir\u00f5es para realizar determinadas tarefas, como constru\u00e7\u00e3o de casas, trabalhos na lavoura, etc., mas, as propriedades dessas resid\u00eancias e das lavouras s\u00e3o familiares e n\u00e3o coletivas.  Podem ocorrer trabalhos coletivos de todo o grupo para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para uma grande festa pr\u00e9-programada, por exemplo, mas, mesmo nesses casos, a lavoura ser\u00e1 de responsabilidade de uma das fam\u00edlias do grupo, geralmente, a dona (respons\u00e1vel) da festa.<\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pelas regras de reciprocidade e pela realiza\u00e7\u00e3o de festas, rituais e brincadeiras, quando as fam\u00edlias trocam alimentos ou se alimentam umas nas casas das outras.<\/p>\n<h3>&#8211;  Organiza\u00e7\u00e3o por cl\u00e3s, metades e grupos &#8211;<\/h3>\n<p> Os povos tribais, na busca por melhor relacionamento entre as fam\u00edlias, rendimento nas atividades de subsist\u00eancia e ritual\u00edsticas, procuram, em sua grande maioria, organizar-se de forma que haja sempre metades, cl\u00e3s e grupos de atividades em oposi\u00e7\u00e3o a outros.  Na verdade, essas oposi\u00e7\u00f5es formam sistemas duais, ligados a fen\u00f4menos da natureza ou a especializa\u00e7\u00f5es em determinados conhecimentos ancestrais, que complementam uns aos outros. Assim, determinados cl\u00e3s ou metades s\u00e3o especializados no conhecimento do fogo, da chuva, da ca\u00e7a, das sementes, etc. Dessa forma, cada cl\u00e3, linhagem, fam\u00edlia ou indiv\u00edduo, torna-se imprescind\u00edvel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da unidade grupal, pois os conhecimentos de cada um complementam os dos outros, na tomada de decis\u00f5es cotidianas. De um modo geral, os casamentos s\u00e3o buscados em cl\u00e3s opostos, o que assegura a alian\u00e7a permanente entre eles.<\/p>\n<h3> &#8211; Processo Educacional Pr\u00f3prio &#8211; <\/h3>\n<p>A base mantenedora de qualquer sociedade, inclusive as tribais, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens.  Nas sociedades tribais ind\u00edgenas, o processo educacional \u00e9 iniciado por volta dos 07 anos, quando a crian\u00e7a \u00e9 inserida em um grupo de crian\u00e7as mais ou menos da sua idade, do qual ele far\u00e1 parte o restante da sua vida, formando assim as classes de idade. Um dos problemas que ocorrem na manuten\u00e7\u00e3o das comunidades alternativas ou intencionais \u00e9 a falta de um processo educacional pr\u00f3prio. Ao mandarem os filhos para estudarem fora das comunidades, impede-se que eles desenvolvam a mesma liga ideol\u00f3gica dos pioneiros. Quando retornam, n\u00e3o conseguem conviver com os outros dentro dos modelos adotados.<\/p>\n<p>\tExistem outras caracter\u00edsticas gerais das sociedades tribais que enumeramos no livro, mas que n\u00e3o as mencionaremos aqui, pela exiguidade do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\tO importante aqui \u00e9 entender que \u00e9 poss\u00edvel criar uma sociedade de modelo tribal em qualquer parte, seguindo as indica\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o dadas na obra.<br \/>\nOs leitores, no entanto, poder\u00e3o perguntar: Como manter uma comunidade tribal, que n\u00e3o possui estatuto, escrita, moeda e propriedade privada, no meio capitalista?<\/p>\n<p>\tA solu\u00e7\u00e3o que oferecemos na obra, \u00e9 constituir, em paralelo, entidades formais, que ir\u00e3o dialogar com o sistema capitalista, sem deixar que sejam afetadas as rela\u00e7\u00f5es sociais mantidas no sistema tribal. Parece complicado, mas \u00e9 exatamente o que est\u00e3o fazendo as sociedades tribais ind\u00edgenas no Brasil e em outros pa\u00edses. Trafegam pelos dois sistemas, sem deixar que  a\u00e7\u00f5es do sistema capitalista interfiram  no sistema tradicional. <\/p>\n<h3>Dragon Dreamming, Sociocracia e Arquitetura. <\/h3>\n<p>\tO livro trar\u00e1, em seus anexos, indica\u00e7\u00f5es de como formar uma comunidade tribal utilizando-se o Dragon Dreamming e a Sociocracia, duas metodologias modernas e eficazes para a formata\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o de trabalhos em grupo. Essas metodologias possuem em seus princ\u00edpios, as mesmas bases do Tribalismo.  Para isso, estamos recebendo as contribui\u00e7\u00f5es do Professor Paulo Cesar Ara\u00fajo e de Henny Freitas. Contar\u00e1 tamb\u00e9m cm a contribui\u00e7\u00e3o do Indigenista-Arquiteto Renato Sanchez, que apresentar\u00e1 ideias, conceitos e projetos de implanta\u00e7\u00e3o de bairros populares, condom\u00ednios urbanos e rurais e comunidades intencionais, baseados na arquitetura e urbanismo ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\tO livro procurar\u00e1, assim, contribuir com as milhares de tentativas, mundo afora, de re-encontrar formas do bem viver.<br \/>\n\t\t\t\t        *Fernando Schiavini \u00e9 Indigenista e Escritor<br \/>\n\t\t\t\t\t\twww.fernandoschiavini.com.br<br \/>\n\t\t\t\t\t\tFace: Manifestos Indigenistas [\/et_pb_text][et_pb_image src=&#8221;http:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-content\/uploads\/Fernando-Schiavini.jpeg&#8221; _builder_version=&#8221;4.5.6&#8243; _module_preset=&#8221;default&#8221; title_text=&#8221;Fernando Schiavini&#8221; hover_enabled=&#8221;0&#8243;][\/et_pb_image][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo representa o resumo de um livro que estamos desenvolvendo, que tem como objetivo o estudo das organiza\u00e7\u00f5es humanas, com foco nos sistemas tribais, a forma organizativa mais antiga da humanidade. O livro apresentar\u00e1 uma primeira parte de retrospectiva das organiza\u00e7\u00f5es humanas desde o aparecimento da esp\u00e9cie humana \u00e0 atualidade e, na segunda parte, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":264,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"on","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-262","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comunidades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}