{"id":124,"date":"2020-07-29T17:27:15","date_gmt":"2020-07-29T20:27:15","guid":{"rendered":"http:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/?p=124"},"modified":"2020-08-12T01:19:55","modified_gmt":"2020-08-12T04:19:55","slug":"dominga-natalia-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/dominga-natalia-entrevista\/","title":{"rendered":"Dominga Nat\u00e1lia &#8211; entrevista"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section fb_built=&#8221;1&#8243; _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243;][et_pb_row _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243;][et_pb_column _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; hover_enabled=&#8221;0&#8243;]<\/p>\n<h1>Louren\u00e7o Andrade entrevista Dominga Nat\u00e1lia<\/h1>\n<p><i><br \/>\n1. Como est\u00e1 hoje a Comunidade Kalunga depois do epis\u00f3dio do desmatamento? Como a Comunidade est\u00e1 reagindo aos fatos?<br \/>\n<i><br \/>\nA comunidade hoje, depois do desmatamento, est\u00e1 um pouco assustada porque tem que buscar amparo junto aos \u00f3rg\u00e3os competentes; prefeitura, governo estadual e federal.<\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i>E esse desmatamento pelo que ficamos sabendo foi realizado na calada da noite e parece que a prefeitura est\u00e1 envolvida e n\u00f3s n\u00e3o sabemos em quem confiar. E se a Prefeitura que deveria estar nos protegendo est\u00e1 envolvida, a comunidade fica muito assustada porque as coisas est\u00e3o acontecendo na calada da noite. E isso t\u00e1 acontecendo bem na parte que n\u00f3s consideramos que \u00e9 a nossa caixa da \u00e1gua, \u00e1gua praticamente de todo Quilombo. Ent\u00e3o \u00e9 muito revoltante esta situa\u00e7\u00e3o para todo o territ\u00f3rio.<br \/>\n<i><br \/>\n2. Quais s\u00e3o as demandas da Comunidade em rela\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o aos governos federal, estadual e municipal?<br \/>\n<i><\/i><\/i><\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i><i>A nossa demanda para os governos tanto federal, estadual e municipal \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. \u00c9 o que mais nos priva e nos incomoda. Isso tem mais de trinta anos, essa demanda, essa busca, esta luta&#8230;<br \/>\ne n\u00e3o concretizou tudo, mas n\u00f3s almejamos esta finaliza\u00e7\u00e3o. E queremos pol\u00edticas p\u00fablicas &#8230;<br \/>\nO munic\u00edpio \u00e9 taxado como pobre, mas \u00e9 pobre de pol\u00edticas p\u00fablicas: abastecimento de \u00e1gua para as fam\u00edlias&#8230;as pessoas v\u00e3o longe para buscar \u00e1gua no rio.<\/i><\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i><i><br \/>\n<\/i><\/i><\/i><i><i><i>A falta de estradas nos priva muito, onde estamos n\u00e3o tem estradas para se locomover. Existem comunidades que at\u00e9 hoje n\u00e3o tem estrada. A associa\u00e7\u00e3o local, que se fez de prefeitura, abriu trilheiros para ligar uma comunidade a outra. N\u00e3o estamos pobres de riquezas, mas de falta de estruturas b\u00e1sicas, postos de sa\u00fade, hospital &#8211; no nosso munic\u00edpio n\u00e3o consideramos que haja hospital, quando algu\u00e9m sente alguma coisa, nem coagulante tem. Priorizamos junto aos nossos governantes uma aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, n\u00e3o \u00e9 nada demais<br \/>\n<\/i><\/i><\/i><i><i><i>.<br \/>\nQuando ocorrem as primeiras chuvas, muitas comunidades ficam isoladas, mesmo com os trilheiros, pois tem os rios grandes e a\u00ed precisamos de pontes de pelo menos 20 m.<br \/>\n\u00c9 uma vida toda lutando para conseguir uma ponte. \u00c9 um absurdo!<br \/>\nN\u00e3o precisamos de lavouras para contaminar nossos rios, nossa sa\u00fade.<br \/>\nParece que tem uma coisa que os nossos governantes n\u00e3o sabem, que n\u00f3s trabalhamos com agricultura familiar. Temos condi\u00e7\u00f5es at\u00e9 de abastecer as cidades vizinhas, precisamos de estradas, os produtos se perdem porque estamos no meio da Serra e n\u00e3o temos escoamento adequado.<br \/>\n<i><br \/>\n3. Voc\u00ea pode falar um pouco sobre como a Comunidade est\u00e1 enfrentando a pandemia?<br \/>\n<i><\/i><\/i><\/i><\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i><i>A comunidade teve a\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de higieniza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria com os volunt\u00e1rios, mas ficou cansativo. Mas mesmo fazendo isso tivemos o primeiro caso na comunidade e vimos o descaso com as pessoas que n\u00e3o tiveram os cuidados necess\u00e1rios. Teve um caso de uma menina que sofreu um aborto e foi para Bras\u00edlia. A\u00ed a colocaram na ambul\u00e2ncia sem dar aten\u00e7\u00e3o e ela ficou l\u00e1 tr\u00e1s sozinha e teve uma queda.<\/i><\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i><i>A gente j\u00e1 sente esse descaso de modo geral e na pandemia o descaso \u00e9 total mesmo.<br \/>\nNa comunidade temos conscientizado, mas \u00e9 como uma grande fam\u00edlia, o contato \u00e9 inevit\u00e1vel. Muitos n\u00e3o acreditam que a pandemia seja uma verdade, as pessoas ficam sem saber se \u00e9 verdade ou n\u00e3o&#8230;<br \/>\n<i><br \/>\n4. Quais os projetos da Associa\u00e7\u00e3o Quilombo Kalunga no momento e mais a longo prazo?<br \/>\n<i><br \/>\nA primeira quest\u00e3o \u00e9 a seguran\u00e7a no territ\u00f3rio, para que possam usar,<br \/>\nusufruir e viver onde sempre viveram, nasceram e cresceram, plantando, cultivando e divertindo.<\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i>O projeto maior da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as pessoas tenham o direito de ir e vir dentro do territ\u00f3rio, sentindo-se \u00e0 vontade.<br \/>\nQueremos nos desenvolver com as pr\u00f3prias m\u00e3os, n\u00e3o ficar precisando de migalhas. Podendo estar produzindo na agricultura familiar para o consumo pr\u00f3prio e para exportar, para vender, quer sejam os frutos do cerrado ou plantas medicinais. A comunidade quer sobreviver de uma forma justa, n\u00e3o com migalhas.<\/p>\n<p>Hoje a comunidade est\u00e1 dependendo de cestas b\u00e1sicas para a sua sobreviv\u00eancia, sendo que podemos produzir favorecendo a todos. Almejamos o nosso pr\u00f3prio desenvolvimento, conseguir andar com as nossas pr\u00f3prias pernas. Fazer o que queremos, n\u00e3o o que \u00e9 poss\u00edvel simplesmente.<br \/>\n<i><br \/>\n5. Voc\u00ea pode falar um pouco da hist\u00f3ria do povo Kalunga na regi\u00e3o e de cada Comunidade que se formou?<br \/>\n<i><br \/>\nA hist\u00f3ria do povo Kalunga \u00e9 muito longa, mas o que sabemos \u00e9 que quando se formou, h\u00e1 mais de 300 anos atr\u00e1s, vinham fugidos, muito antes da liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o de \u00e1reas remotas, e se instalaram no meio destes v\u00e3os e ai foram crescendo as fam\u00edlias, comunidades. Depois da liberta\u00e7\u00e3o, muitas pessoas vieram tamb\u00e9m e a\u00ed as comunidades foram aumentando e se formando, cada vez mais isoladas, para que se evitasse a captura novamente.<\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i>Existem relatos que pessoas vinham, eram os \u201crevoltosos\u201d, que chegavam a cavalo e pegavam tudo que encontravam, levando as fam\u00edlias a se refugiarem nas cavernas. Isso aconteceu pelo lado de Monte Alegre e de l\u00e1 foram se espalhando pelo resto do territ\u00f3rio. Com o tempo as comunidades foram se espalhando. Eles transportavam as sementes no meio dos cabelos e sinalizavam pontos de encontro. At\u00e9 hoje tem festa na comunidade que s\u00e3o os \u201cPontos de Encontro\u201d, as Romarias &#8230;\u00e9 algo que come\u00e7ou h\u00e1 muitos anos e ningu\u00e9m sabe quando come\u00e7ou.<\/p>\n<p>As comunidades n\u00e3o tinham acesso a pessoas de fora, isso come\u00e7ou com os garimpeiros, procurando \u00e1reas e alguns deles trouxeram a mal\u00e1ria l\u00e1 da Amaz\u00f4nia. Nesta \u00e9poca tivemos o primeiro contato com o pessoal da sa\u00fade, a SUCAM.<br \/>\nMais tarde ocorreu um contato com uma antrop\u00f3loga pesquisadora l\u00e1 pelo lado de Monte Alegre, ela quis que desenvolv\u00eassemos algo para termos acesso e nos apresentou a ideia de uma associa\u00e7\u00e3o com o objetivo de dar efic\u00e1cia \u00e0 luta pela terra.<\/p>\n<p>Eu me lembro da gente saindo de casa porque algu\u00e9m ia colocar fogo com a gente dentro, vivemos isso.<\/p>\n<p>Consideramos que conseguimos muitos avan\u00e7os, tanto quanto os nossos antepassados. Hoje muita gente tem acesso ao estudo, isso foi um grande avan\u00e7o para o Quilombo em geral. As pessoas conseguem ver as coisas de outro modo, embora muitos aproveitem das fraquezas das comunidades para benef\u00edcio pr\u00f3prio e hoje isso diminuiu um pouco. Agora, com a associa\u00e7\u00e3o e o seu regimento interno, estamos mais habilitados a saber o que fazer. No momento, para algu\u00e9m pesquisar na comunidade, \u00e9 preciso autoriza\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o. Estamos com as regras nas m\u00e3os, mas antes era muito aberto e as pessoas aproveitavam.<\/p>\n<p>Foram feitas 14 reuni\u00f5es para eleger os delegados e criar o regimento interno. E mais 17 reuni\u00f5es nas comunidades para que as demandas fossem trazidas por cada comunidade. E depois que foi aprovado o regimento interno por todas as comunidades, a reuni\u00e3o final foi feita em quatro dias em Cavalcante, para a aprova\u00e7\u00e3o final do regimento. Foi feito um curso de forma\u00e7\u00e3o com representantes de cada comunidade, para facilitar os trabalhos da associa\u00e7\u00e3o (AQK) em cada uma dessas comunidades, com tr\u00eas representantes de cada uma delas. S\u00e3o 56 representantes da associa\u00e7\u00e3o hoje distribu\u00eddos por todo o territ\u00f3rio para ajudar na organiza\u00e7\u00e3o interna, com a demanda de uso e ocupa\u00e7\u00e3o das terras, responsabilidade nos conflitos para que possam ser resolvidos l\u00e1 mesmo. J\u00e1 demos um grande salto, mas a luta continua. Esse \u00e9 um resumo de tudo, porque tem muita hist\u00f3ria para tr\u00e1s<br \/>\n<i><br \/>\n6. E sobre a preserva\u00e7\u00e3o da Cultura Kalunga, o que est\u00e1 acontecendo de novo?<br \/>\n<i><br \/>\nA cultura no Quilombo \u00e9 passada de pais para filhos e atrav\u00e9s da viv\u00eancia, aprendemos as coisas, as fam\u00edlias junto em comunidades &#8230;tanto na produ\u00e7\u00e3o como na organiza\u00e7\u00e3o, nos espa\u00e7os, nas tradi\u00e7\u00f5es, nas festividades, \u00e9 tudo feito na vivencia.<br \/>\nHoje j\u00e1 existem v\u00e1rias pessoas registrando estes acontecimentos, porque meu pai diz que no Quilombo a cultura vai se movimentando de acordo com o progresso que vai chegando&#8230; e a comunidade n\u00e3o quer ficar no atraso. N\u00e3o acreditamos que a pobreza seja preservadora da cultura, a cultura continua, mas queremos que a mis\u00e9ria seja afastada, que as pessoas consigam ter a oportunidade de novas coisas, tamb\u00e9m para sobreviver. Nossa cultura est\u00e1 preservada, tem altos e baixos, \u00e0s vezes a juventude n\u00e3o est\u00e1 muito interessada. Valorizamos a nossa cultura ao ver a do outro, que \u00e9 diferente, e a\u00ed precisamos conhecer mais para valorizar o que temos.<\/i><\/i><\/p>\n<p><i><i><br \/>\n<\/i><\/i><\/i><i><i><i>O povo sem cultura \u00e9 um povo sem identidade. Temos as nossas diferen\u00e7as por estarmos num Quilombo Kalunga, de acordo com o que n\u00f3s acreditamos, com nossos costumes, com nossas vivencias.<br \/>\nE s\u00f3 conseguimos ver isso ao ver a cultura do outro.<\/i><\/i><\/i><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; column_structure=&#8221;1_2,1_2&#8243;][et_pb_column _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; type=&#8221;1_2&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; hover_enabled=&#8221;0&#8243;]<\/p>\n<h1>Dominga Nat\u00e1lia<\/h1>\n<p>Comunidade Kalunga Engenho 2, Vice presidente da AQK.<\/p>\n<p>Professora licenciada pela Educa\u00e7\u00e3o do Campo &#8211; UFT, m\u00e3e e idealizadora do grupo de Sussa na comunidade.<\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][et_pb_column _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; type=&#8221;1_2&#8243;][et_pb_image src=&#8221;http:\/\/aldeiasinstitute.net\/2020\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2020-07-25-at-7.07.45-PM.jpeg&#8221; _builder_version=&#8221;4.0.5&#8243; hover_enabled=&#8221;0&#8243;][\/et_pb_image][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>\n<p><\/i><\/i><\/i><\/i><\/i><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Louren\u00e7o Andrade entrevista Dominga Nat\u00e1lia 1. 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